9.17.2009

Excentricos inatos, não os do Euro milhões

Entre as minhas cituações preferidas estão estas duas do John Stuart Mill:

"That so few now dare to be eccentric marks the chief danger of the time"

"Eccentricity has always abounded when and where strength of character had abounded; and the amount of eccentricity in a society has generally been proportional to the amount of genius, mental vigor, and courage which it contained."
Apetece-me falar de um dos meus amigos preferidos, vamos chamar-lhe B. Nasceu na China em 85, mudou-se com a mãe para o Canadá aos 5 anos; não conhece o pai mas sabe que foi enviado para um campo de trabalhos forçados no Oeste da China pouco depois de ele nascer. A sua relação com a mãe é tumultuosa, muito por causa do conflito entre as expectativas e padrões rígidos típicos orientais da mãe e a maneira de ser anómala de B. B é autista.

E por ser autista não quer dizer que B seja deficiente e que só consiga sobreviver se for empoleirado num mongolitório qualquer. (Grande parte das pessoas que se situam no espectro autista vivem a sua vida sem problemas de maior, como o Nobel da Economia, Vernon Smith). B interessa-se obsessivamente por determinados temas e tem grande aversão a qualquer tipo de mudança na sua ordem das coisas. B não consegue compreender linguagem não verbal em geral e para os padrões das pessoas "normais", pode-se dizer que não consegue mostrar grande empatia ou reciprocidade emocional. Não que B não tenha compaixão ou sentimentos, tem é uma maneira diferente de os expressar.

Uma das obsessões mais fortes de B é pela Alemanha. Tanto que B decidiu abandonar o curso que estava a tirar no Canadá e ir estudar história numa pequena cidade Alemã. B já leu todos os livros possíveis sobre a 2ª guerra mundial em geral e sobre o Hitler em particular. É das pessoas mais inteligentes que conheço, e provavelmente a mais eloquente a escrever. O mais interessante é que B tem uma sempre uma opinião única sobre qualquer assunto, e demonstra-a com uma eloquência que poucos conseguem. Com frequência essa opinião é a antítese to politicamente correcto, mas quase sempre de enorme valor porque são originais e intelectualmente estimulantes (tipo completamente outside the box tazaver, ya?). Sem qualquer exagero, B tem eloquência e uma mente brilhante o suficiente para escrever best-sellers e ser um intelectual de topo.

Conheci B há 10 anos, num forum da internet e desde então a nossa relação mantem-se pelo msn. Em 2007 conheci-o pessoalmente. Estava a planear um interrail de férias pela europa com dois amigos da faculdade, e como passávamos pela Alemanha e Austria, lembrei-me de o convidar. Bom, as peripécias dessa viagem talvez as conte num novo post (porque dão pelo menos um post ou, quiçá, um livro). Nem sempre foi fácil de lidar com B, ele não age de todo segundo os padrões normais. Mas o interrail teria sido bem menos colorido sem ele.

Não deve ter sido ser fácil de todo fazer amigos na escola. Com 15 e depois com 17 anos, B foi expulso de casa pela mãe durante dias e viveu como sem abrigo. Pouca estrutura familiar tem e no fundo enfrenta o futuro sozinho, com um cérebro que não é desenhado para desempenhar as funções sociais mundanas com habilidade. Mas é um génio. É mais um exemplo de muitos para ilustrar a importância da tolerância e celebrar a diversidade. Especialmente nós que vivemos num país homogéneo em tons de cinza.

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